8 de julho de 2015

Vamos falar sobre Moda Sustentável?


       O tema a ser abordado aqui hoje não é tão óbvio quanto o título sugere. Não, não vou falar de coleções à base de materiais ecológicos nem nada do gênero (apesar de existirem marcas incríveis que são capazes de desenvolver tecidos a partir deste tipo de material). Vamos falar de consumo, propriamente dito.
        Tudo começou quando uma professora apresentou um texto em sala: O Manifesto de Moda de Vanessa Friedman, Chefe de Crítica de Moda do New York Times (e considerada a jornalista mais influente do ramo). O texto se trata de uma palestra dada por Vanessa no Copenhagen Fashion Summit, no ano passado. A palestra aborda a Indústria da Moda e nossos hábitos de consumo de uma forma tão incrível, que me fez pensar alguns dias sobre o assunto, e por consequência, querer dividir aqui com vocês.



     A jornalista inicia a palestra dizendo que Moda Sustentável não faz o menor sentido. É uma contradição.
     Afinal, de acordo com o dicionário, Moda é "a produção e a comercialização de novos estilos de produtos, especialmente roupas e cosméticos". A questão é que a palavra sustentável significa "ser capaz de manter uma certa taxa ou nível", o que na Moda é impossível. Ou seja: de um lado a pressão do novo; do outro a necessidade de constância.
      Ela ainda exemplifica: "Pense nas suas experiências de compra - digamos - de um jeans". Em uma estação você quer um jeans skinny, mas alguns meses depois você vê nas revistas e blogs que os jeans skinny se tornaram over. E aí? Você lê que os jeans Flare é o must da vez, e meses depois vem o jeans boyfriend, depois o jeans escuro, o rasgado e o ciclo prossegue. 


       Porque é assim que a Moda funciona: ela faz com que um produto se torne ultrapassado e depois lança outro, em ciclo. Algo está na Moda e então saí de Moda - "o que por definição própria é algo oposto ao que é sustentável".
         E o que a Industria faz? Acelera este ciclo. Novas coleções de Moda entram no mercado quatro vezes ao ano ao invés de duas, e algumas até mais de quatro. E as Fast Fashions? São peças novas a cada semana! O que prejudica muito o processo criativo dos designers: afinal quão rápido somos capazes de ter novas ideias? Ou originais?
        E para que a Industria alcance cada vez mais consumidores, as marcas passam a abrir mais e mais filiais, em cidades periféricas ou em na mesma cidade, em vizinhanças diferentes. "Em um acumulo de pontos de venda, que em certo momento, começam a se canabalizar" - Um ciclo nada sustentável.
        A intenção do mercado é ensinar o consumidor de que ele precisa de novidades. Roupas se tornaram peças completamente descartáveis: "Eu já até ouvi uma pessoa aconselhar outra a usar uma roupa nova muitas vezes enquanto ela está nova, e depois apenas se livrar dela, sem querer se preocupar em tentar lavá-la. A lavagem custa mais do que a roupa". Isso é sustentável?


        A grande questão é: o que fazer sobre isso?
      De acordo com Vanessa, precisamos de uma fase nova. "Há muito tempo atrás minha avó economizava e economizava para comprar uma bela bolsa de couro, e uma vez que a adquiria, a tinha por anos." O mesmo acontecia com casacos, cardigans e acessórios. "Ela sabia como lavar suas roupas - normalmente à mão - e como pendurá-las, e como guarda-las, seja para a próxima estação ou para a próxima geração". A avó de Vanessa construiu nada mais nada menos que um Guarda-Roupa Sustentável. 

     E o novo conceito que Vanessa defende é justamente este: Investir em peças de qualidade, e por consequência investir em durabilidade. É a decisão sobre o que realmente constitui valor na peça.

        Isso muda a forma como você pensa a respeito de suas roupas e também do que você exige delas. "Eu tenho uma mala com os mesmos quatro vestidos, duas jaquetas e uma calça de couro que vim gradualmente construindo nos últimos dez anos, e atualmente, esse mesmo grupo de roupas - colocando aí um par de botas ou bolsas - andam comigo em toda coleção de moda." O que Vanessa demanda destas peças? "Elas são confortáveis, porque posso dobra-las e coloca-las numa mala e depois tira-las de lá sem ter que passá-las inúmeras vezes." É a proposta de valor que a atende.

     Este pensamento sustentável não reflete só o consumidor, mas também os designers. Existem marcas que pensam menos em abrir lojas no mundo inteiro, e mais em adicionar características especiais nas lojas já existentes. Pensam menos sobre a massificação de determinado produto e mais em fazer produtos especiais, com trabalhos manuais ou materiais limitados, que acabam se tornando o oposto do descartável e atribuindo mais valor à peça.

     Achei um posicionamento genial! E por isso achei importante compartilhar o ponto de vista dela com vocês: Não só para quem trabalha no ramo, mas também para quem consome!

       Tem o texto da palestra na íntegra neste blog AQUI


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